Alimentos diversificados e socialmente justos

É interessante observar que muitos dos alimentos que escolhemos ingerir todos os dias, em sua maioria, levam quase sempre os mesmos ingredientes que são o trigo refinado, o ovo e o leite. Nos bolinhos, pães, torradas, massas (de pizza, de torta, macarrões), bolachas, rosquinhas dentre outras centenas, o que os fazem “diferentes” uns dos outros é apenas o sabor que quase sempre é artificial, mas os ingredientes principais são os mesmos. No bolo de cenoura não tem esta raiz, tem seu sabor artificial, açúcar, farinha de trigo refinada, leite e ovos e; em todos os “lanchinhos” da manhã e da tarde os quais escolhemos para comer são feitos com estes mesmos ingredientes. O que nos leva a refletir que nossa alimentação é extremamente ínfima em diversidade. Outra questão é a aparência do alimento, é sedutor devorar um hambúrguer pelo seu formato; se o pão não estivesse partido ao meio e sim inteiro num prato com a carne ao lado e a salada isolada em outro canto, o sabor não seria o mesmo, pareceria mais um almoço com o arroz trocado pelo pão. Estas percepções são importantes de serem observadas e questionadas, ainda se justificam, por exemplo, pelos alimentos veganos que estão surgindo. Neles não contém nada de origem animal, mas suas cores e formatos imitam os alimentos que vem de animais. Um queijo vegano de leite de coco tem açafrão como tempero para torná-lo amarelo, o substituto do pão-de- queijo é o pão-de-mandioquinha, é o mais conhecido mesmo tendo os pães de batata-doce e inhame.

Nas carnes vegetais é adicionado suco de beterraba para os tornarem vermelhinhos como uma mortadela e muitos deles são vendidos no mesmo formato cilíndrico remetendo à esta carne. Isto comprova que também nos alimentamos com os olhos, nossa visão indica muitos aspectos que nos induzem a decidir por comer ou não determinado alimento. Vai além de indicar se o alimento está estragado ou não, que aquele verdinho no pão indica presença de fungos, ou aquele marronzinho amassado na fruta diz que está passada, apodrecendo. Mas ela é também enganada o tempo todo, considerando a torrada um tipo de alimento diferente do bolo, ainda diferente do macarrão, e assim por diante, mas são produtos dos mesmos ingredientes, apenas de cores e formatos diferentes. Por este motivo é que os alimentos veganos se valem dessas manobras, para que as pessoas se sintam confortáveis se alimentando de vegetais como produtos familiares aos olhos.

Ninguém sentir-se- ia atraído por uma carne cor bege grão-de- bico. Produtos veganos com escritos nas embalagens “quinoa” ou “soja” são menos atrativos do que “salsicha vegetal” e “bife vegetal” além do creme de couve-flor que é “maionese”. Tudo isto para aproximar quem come carne. Entretanto, encontramos alguns produtos que substituem a manteiga/margarina sem precisarem se disfarçarem delas como a pasta de amendoim, pasta de gergelim (tahine) e os patês de berinjela e alho; têm sucesso na culinária por si próprios, ainda bem! Já se sabe que a alimentação industrializada e gordurosa na rotina, junto com sedentarismo e estresse é responsável pela maioria das mortes por acarretarem problemas com diabetes; doenças hipertensivas, cerebrovasculares e infartos.

A diversificação de alimentos naturais é muitíssimo importante para nossa nutrição, pois além de manter o nosso corpo mais disposto mantendo níveis de dopamina que nos traz bem-estar, evita algumas doenças e não privilegia apenas um tipo de produtor. Se tudo que ingerimos contém trigo, ovo e leite, claramente que os produtores destes alimentos lucrarão mais. Por este motivo e pelo grande consumo da carne, a pecuária tem relevância na economia do país, representou 6,8% do PIB em 2015, totalizando mais de 400 bilhões de reais.

O conhecimento sobre a diversidade dos alimentos na população praticamente inexiste. São recentes as informações de que leguminosas (ervilha, feijão, grão-de- bico, lentilha) e a semente de quinoa são apropriadas para fazer a carne vegetal porque apresentam aminoácidos (que juntos formam proteínas dentro do corpo) que nos alimentam perfeitamente como as carnes. Arroz, couve-flor, linhaça e coco podem ser farinhas e, na figura abaixo você encontra os substitutos dos ovos. Com estas trocas, nosso corpo ganha benefícios simplesmente por possuir comida nova, fica mais equilibrado e ágil fisiologicamente, melhora a qualidade da constituição das células e além do benefício individual, ajudamos a diversificar o destino dos lucros no setor alimentício.

Produtores de monoculturas e donos de indústrias são os mais ricos na área de alimentação, por que industrializados, carne e seus derivados são os produtos mais vendidos no mundo. Vamos fracionar os lucros e comprar de pequenos produtores da própria cidade, de feira; alimentos variados, ou mesmo ovo e o leite caseiro do produtor que mora perto da casa. Assim, quem cultiva e vende alimentos caseiros e locais terão uma renda maior com mais pessoas comprando seus produtos. Hoje em dia há muitas receitas que ficam muito saborosas como pizzas, salgados e doces usando alimentos simples, naturais, de feira. Está muito fácil encontrar receitas, em qualquer busca na internet encontramos vídeos que ensinam. Com esta atitude, estamos melhorando nossa saúde e, ao mesmo tempo, dividindo de forma digna a arrecadação para cada produtor e comerciante e contribuindo para uma sociedade com distribuição de renda mais justa.

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Ellen Garcia

Ellen Garcia

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Bióloga, de Piedade-SP. Graduada pela UNESP, me interesso em meio ambiente de forma geral: animais, plantas, ecologia, cidades sustentáveis, reciclagem, educação ambiental, alimentação saudável, vegetariana e vegana, hortas caseiras, produtos orgânicos e locais, decoração de ambientes, artesanatos, literatura e escrita.

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